A prefeitura de Barranquilla, na Colômbia, voltou a acender o sinal de alerta sobre o descarte ilegal de resíduos nos canais de drenagem da cidade. Em publicação nas redes sociais oficiais, a administração municipal afirmou que “nossos canais não são basureros” e fez um apelo direto à população para que pare de jogar lixo nos arroios — especialmente no arroyo León, um dos principais sistemas de escoamento de águas pluviais da região.
A declaração ocorre em meio à temporada de chuvas que já provocou inundações em diversos bairros. Segundo a Agência de Gestão de Riscos de Desastres da Colômbia (UNGRD), os resíduos sólidos acumulados nos leitos e nas margens dos canais reduzem em até 40% a capacidade de vazão, agravando os transbordamentos. Em Barranquilla, mais de 200 mil pessoas vivem em áreas de risco de alagamento.
A prefeitura informou que, apenas nos primeiros meses de 2026, foram retiradas mais de 1.500 toneladas de lixo dos canais — um volume que supera a média histórica. O secretário de Meio Ambiente local, em entrevista à rádio Emisora Atlântico, classificou a situação como “um problema cultural e de fiscalização insuficiente”. Ele lembrou que a multa para quem descarta lixo em vias públicas e canais pode chegar a 500 salários mínimos, mas a aplicação é rara.
Por que isso importa: Barranquilla é um polo econômico do Caribe colombiano, com um porto estratégico para o comércio exterior. As enchentes recorrentes não só causam perdas humanas e materiais, mas também paralisam cadeias logísticas, afetando pequenos negócios e o custo de vida. Cada vez que um canal entope, o prefeito pede dinheiro a Bogotá, e o contribuinte paga a conta — sem que a raiz do problema seja atacada.
Análise FORTIS: O caso do arroyo León expõe uma verdade incômoda: o Estado colombiano, assim como o brasileiro, gasta mal, tributa demais e entrega pouco. A prefeitura de Barranquilla tem um orçamento anual de cerca de 2,8 bilhões de pesos colombianos (aproximadamente R$ 3,5 bilhões), mas a manutenção dos canais consome 12% desse valor — dinheiro que poderia ir para educação, saúde ou redução de impostos. A solução apontada pela esquerda local é simplesmente aumentar o gasto público com mais agentes de limpeza e multas. Mas isso ignora a ineficiência endêmica: funcionários públicos com baixa produtividade, licitações superfaturadas e ausência de métricas de desempenho.
Uma abordagem liberal-conservadora proporia, em vez disso, a abertura do serviço de coleta e reciclagem para empresas privadas, com contratos baseados em resultados e concorrência real. Cidades como Medellín já reduziram em 30% os resíduos nos canais ao permitir que cooperativas de catadores, com incentivos de mercado, fizessem a triagem porta a porta. Em Barranquilla, a burocracia trava essa inovação. Enquanto isso, o poder público insiste em campanhas de conscientização que funcionam como placebo — sem atacar a causa: a falta de consequências reais para quem joga lixo e a falta de valor econômico para o resíduo reciclável.
Contraponto: Defensores de políticas de maior intervenção estatal argumentam que a privatização dos serviços de limpeza poderia excluir comunidades pobres, que não teriam acesso a coletores regulares sem subsídios. Além disso, apontam que a fiscalização privada não substitui a presença do Estado na punição de infratores. Ambos os argumentos têm mérito. No entanto, a experiência internacional mostra que, quando o Estado define regras claras e fiscaliza indicadores — sem necessariamente operar os serviços —, a eficiência sobe. O problema não é a presença ou ausência do Estado, mas a qualidade da gestão. E, na Colômbia, como no Brasil, a gestão pública é, na média, pior que a privada.
Por Renan Filho · 2026-09-23