A manhã de quinta-feira (19) em Medellín não foi apenas mais um dia de sol nos Andes; foi o palco de mais um capítulo do espetáculo judiciário que tenta – tarda, mas não falha – responsabilizar dois dos maiores operadores da máquina pública local. Miguel Quintero, ex-prefeito, e Sebastián Ortega, ex-secretário de Infraestrutura, sentaram-se novamente no banco dos réus para responder pelo suposto direcionamento de contratos do AMVA. Desta vez, a Prefeitura de Medellín, por meio de sua assessoria jurídica, anunciou que trará à tona provas “irrefutáveis” sobre o esquema, conforme comunicado oficial divulgado na véspera.
Os fatos remontam a 2022, quando a Controladoria Geral de Medellín detectou irregularidades em pelo menos 15 licitações que envolviam obras de manutenção viária e transporte. Segundo relatório do ente de controle, as empresas vencedoras não apresentavam a qualificação técnica exigida e mantinham vínculos diretos com funcionários da prefeitura. O Ministério Público colombiano, que conduz a acusação, sustenta que Quintero e Ortega atuaram como “líderes de uma rede de favorecimento” que desviou mais de 20 bilhões de pesos colombianos (cerca de R$ 24 milhões) dos cofres metropolitanos.
**Por que isso importa**
Para o cidadão comum, essa é mais uma prova de que o Estado não é um ente neutro e bondoso, mas sim um balcão de negócios onde políticos e burocratas trocam favores por contratos milionários. O AMVA, que deveria gerir o transporte e o ordenamento territorial de forma eficiente, tornou-se um curral eleitoral: cada contrato direcionado representa um voto futuro ou uma comissão disfarçada. Em um país que luta para atrair investimentos privados e gerar empregos, a corrupção pública age como um imposto invisível – e regressivo – que encarece obras, atrasa entregas e desestimula a concorrência.
A audiência de hoje é especialmente relevante porque a Alcaldía, agora sob gestão de Federico Gutiérrez, decidiu se posicionar como parte ativa no processo. Em declaração à imprensa local, o secretário jurídico do município afirmou que “as novas provas mostram que o direcionamento não foi um deslize pontual, mas uma política deliberada de governo”. Isso abre um precedente importante: o poder público reconhecendo que a corrupção pode ter sido institucionalizada.
**Análise FORTIS**
Do ponto de vista liberal, o caso Quintero-Ortega é emblemático de um problema estrutural: a concentração de poder decisório nas mãos de agentes públicos sem accountability real. Quando o Estado controla licitações, define critérios subjetivos e pode dispensar concorrência alegando “urgência” ou “interesse público”, cria-se o terreno fértil para o aparelhamento. A solução não está em mais auditorias ou mais leis – embora estas sejam necessárias –, mas na redução do tamanho da máquina. Quanto menor o bolo de contratos públicos, menor a tentação.
Os defensores do “Estado forte” dirão que sem intervenção as empresas privadas não cobririam áreas periféricas ou obras de baixo retorno. A resposta liberal é clara: que se abra espaço para PPPs (Parcerias Público-Privadas) com regras claras e fiscalização independente, e que o dinheiro do contribuinte volte ao seu bolso via redução de impostos – não para financiar aventureiros políticos. Enquanto a Colômbia mantiver um setor público inchado que decide quem ganha o quê, casos como esses se repetirão.
**Contraponto**
É justo registrar que a defesa de Quintero e Ortega alega perseguição política. Em entrevista à Rádio Caracol, o advogado de Quintero afirmou que “as provas são frágeis e as testemunhas, suspeitas”. O ex-prefeito, que governou Medellín entre 2020 e 2023, ainda goza de considerável capital político entre setores da esquerda local, que veem nele um gestor com viés social. Críticos apontam que a Alcaldía de Gutiérrez – de centro-direita – pode estar usando o Judiciário para desgastar adversários. Seja qual for a motivação, o princípio liberal de presunção de inocência deve prevalecer até o trânsito em julgado. No entanto, a opacidade dos processos licitatórios é fato documentado – e isso independe de partido.
**1. O que exatamente é o AMVA e por que ele é importante?** O Área Metropolitana del Valle de Aburrá (AMVA) é a entidade que coordena o transporte, o ordenamento territorial e o saneamento básico de Medellín e outros 9 municípios da região metropolitana. Com um orçamento anual superior a 500 bilhões de pesos, ele financia projetos essenciais como o metrô, corredores viários e ciclovias. Quando há direcionamento de contratos, a população perde em qualidade e eficiência dos serviços.
**2. Quais as consequências legais para Quintero e Ortega se condenados?** A acusação pede penas de 8 a 15 anos de prisão por peculato e concussão, além da inabilitação para cargos públicos. Em caso de condenação, eles terão que devolver os valores desviados, acrescidos de correção. A Justiça colombiana tem histórico de condenações lentas, mas nos últimos anos houve avanços com a criação de tribunais especializados em corrupção.
Por Renan Filho · 2026-09-21