O silêncio cúmplice do Estado colombiano voltou a ser exposto. Nos resguardos indígenas Caño de Sal e Luna Roja, localizados no município de Puerto Colombia, departamento do Meta, um suposto esquema de abuso sexual sistemático contra meninas indígenas entre 12 e 15 anos veio à tona nas últimas semanas. As autoridades locais confirmaram a abertura de investigação após relatos de lideranças indígenas encaminhados à Defensoria del Pueblo e à Procuradoria Geral da Colômbia, em agosto de 2026.
Os primeiros indícios, segundo documento obtido pelo portal de notícias local El Tiempo, apontam para a atuação de uma rede que aproveita a ausência de postos policiais permanentes e a precariedade das rotas de denúncia para coagir as vítimas. Os abusos teriam ocorrido entre janeiro e julho deste ano, mas apenas em setembro as famílias conseguiram acessar canais oficiais. Os suspeitos incluiriam membros de grupos armados ilegais que disputam a região – um cenário típico do Meta, onde a falta de presença estatal deixou espaço para o crime organizado e para a violência sexual como ferramenta de controle territorial.
As meninas, a maioria falante de língua nativa (sikuani) e com pouco domínio do espanhol, relataram às equipes psicossociais da Unidad de Víctimas que eram levadas sob promessa de emprego ou ajuda financeira para casas afastadas dentro da reserva. A Defensoria del Pueblo emitiu nota técnica alertando para a “grave violação de direitos humanos” e solicitou medidas de proteção imediatas, mas até o fechamento desta edição não havia reforço policial ou atuação do Instituto Colombiano de Bienestar Familiar (ICBF).
Por que isso importa? Porque o caso não é um acidente – é a consequência direta de décadas de um Estado que tributa impiedosamente seus cidadãos (a carga tributária colombiana chega a 34% do PIB) e entrega serviços pífios. Os resguardos Caño de Sal e Luna Roja ficam a mais de seis horas de estrada de Villavicencio, a capital departamental. Não há delegacia especializada em crimes contra crianças, e os poucos funcionários do ICBF que cobrem a região atendem a mais de 40 comunidades. O resultado é uma taxa de impunidade que, segundo dados do Instituto Nacional de Medicina Legal, ultrapassa 92% para crimes sexuais contra menores em áreas rurais da Colômbia.
Análise FORTIS: A esquerda colombiana, que domina o Executivo desde 2022 sob Gustavo Petro, costuma atribuir a violência nas reservas ao “capitalismo predatório” e ao “abandono histórico”. Ora, o abandono é real – mas não é fruto do mercado, e sim da máquina estatal que consome 60% do orçamento nacional com folha salarial, previdência e subsídios ineficientes, enquanto falha em levar policiais, juízes e assistentes sociais para onde são necessários. A narrativa de que “o Estado precisa de mais recursos” ignora que a Colômbia já gasta 17% do PIB em programas sociais e segurança, com resultados piores do que países vizinhos que gastam menos (como o Chile, com 13% do PIB e taxa de homicídios 40% menor). O problema é como se gasta – e não quanto.
Contraponto: organizações como a ONU Direitos Humanos e a Anistia Internacional criticam o governo colombiano por não priorizar a proteção de mulheres indígenas, mas raramente apontam o dedo para a incompetência administrativa dos próprios governos indígenas locais, muitos dos quais operam com conselhos comunais que escondem casos de violência doméstica para evitar “interferência externa”. Também é preciso lembrar que o Estado colombiano, sob qualquer governo, já tentou centralizar o combate aos abusos – e fracassou. A saída liberal-conservadora não é mais Estado, mas um Estado mais enxuto, focado em segurança pública, judiciário célere e delegacias comunitárias com poder de ação, além de incentivos fiscais para organizações privadas que ofereçam abrigo e aconselhamento psicológico.
Por Renan Filho · 2026-09-22