Na última quinta-feira, a icônica Residência de Olivos, em Buenos Aires, foi palco de um protesto que reuniu cerca de 800 pessoas, segundo estimativas da imprensa local. Organizado por movimentos sociais e familiares de Agustín Agudiez, jovem de 22 anos morto em novembro de 2023 após uma abordagem policial na província de Buenos Aires, o ato exigiu a federalização da investigação e a punição dos agentes envolvidos. O caso, que ganhou contornos nacionais, reacende o debate sobre a atuação das forças de segurança e a responsabilidade do Estado argentino.
Agustín Agudiez foi detido por suspeita de porte de drogas em um bairro de La Matanza. Horas depois, deu entrada no hospital local com múltiplas lesões e parada cardiorrespiratória. A autópsia oficial apontou “asfixia por compressão torácica”, mas a defesa da família alega tortura. O processo corre na Justiça provincial, sem avanços significativos. Os manifestantes, em cartazes e discursos, pedem a intervenção do governo federal de Javier Milei, que até o momento se manteve em silêncio público sobre o caso.
Por que isso importa? O protesto não é apenas mais um capítulo da crise de segurança argentina. Ele expõe um padrão: o Estado gasta bilhões de pesos em forças policiais, mas falha em treinar, supervisionar e responsabilizar seus agentes. Dados oficiais do Ministério da Segurança da província de Buenos Aires indicam que, em 2023, houve 127 mortes em intervenções policiais, um aumento de 18% em relação ao ano anterior. A maioria dos casos não resultou em condenação. Enquanto isso, a carga tributária argentina segue uma das mais altas da América Latina — cerca de 30% do PIB — e o cidadão comum vê os serviços públicos deteriorarem-se.
Análise FORTIS: O caso Agudiez é trágico, mas a resposta da esquerda — exigir mais Estado e mais intervenção federal — é contraproducente. A solução não está em centralizar investigações ou criar novas comissões burocráticas, que historicamente servem apenas para alimentar o clientelismo político. O que falta é transparência nos processos internos das polícias, reforma dos códigos de conduta e, acima de tudo, responsabilização real dos agentes que abusam da força. Um Estado mínimo não significa ausência de lei; significa que a lei deve ser aplicada com rigor, sem corporativismo. O governo Milei, eleito com a promessa de cortar gastos e desburocratizar, precisa mostrar que a “motosserra” também alcança o sistema de segurança pública. Até agora, o silêncio do presidente alimenta a narrativa de que o liberalismo é indiferente ao sofrimento humano — o que não é verdade, mas é uma falha de comunicação e de ação.
Contraponto: Os organizadores do protesto, como a Central de Trabalhadores Argentinos (CTA) e o Movimento Justiça Ya, afirmam que o caso é exemplo de “violência institucional” e que a única saída é a federalização das investigações. Em declaração à imprensa, a mãe de Agustín disse: “Não queremos mais promessas. Queremos que o governo tome as rédeas e puna os culpados.” Por outro lado, fontes do governo argentino, sob anonimato, sinalizaram à agência Télam que o caso é de competência provincial e que a intervenção federal seria inconstitucional. A resposta, embora juridicamente correta, soa como omissão em um momento em que a opinião pública clama por ação.
Por Renan Filho · 2026-09-26