A tradicional tribuna da ONU, em setembro de 2026, foi palco de mais um capítulo da diplomacia imprevisível de Javier Milei. O presidente argentino, conhecido por sua retórica libertária e alinhamento com o campo conservador global, fez um discurso que misturou reivindicação territorial deslocada e reafirmação de lealdade a Israel. O resultado? Um verdadeiro 'offside' diplomático que expõe as contradições de um governo que promete pragmatismo, mas insiste em batalhas ideológicas.
Ao abordar a questão das Malvinas, Milei tentou emplacar um tom de firmeza, mas errou o alvo. Em vez de apresentar uma proposta concreta de negociação com o Reino Unido — que desde 1833 ocupa o arquipélago —, o presidente argentino limitou-se a repetir o discurso nacionalista, sem oferecer novos caminhos. 'As Malvinas são argentinas e assim permanecerão em nossa alma e em nossa Constituição', disse ele, em declaração reproduzida pela imprensa internacional. O problema é que, para um governo que promete reduzir o tamanho do Estado e cortar gastos, insistir em uma causa que custa milhões aos cofres públicos e não gera retorno imediato parece contraditório.
Em publicação nas redes sociais, o analista político argentino Andrés Malamud comentou: 'Milei transformou as Malvinas em um instrumento de retórica, não de política externa. Enquanto a Argentina precisa de acordos comerciais e investimentos, ele prefere inflamar o nacionalismo que tanto critica nos kirchneristas.' A observação ilustra o paradoxo: um presidente liberal que adota uma postura estatista quando se trata de território.
Mais controverso ainda foi o reforço do vínculo com Israel. Milei tornou-se o primeiro presidente argentino a usar o púlpito da ONU para endossar integralmente o governo de Benjamin Netanyahu, mesmo em meio a críticas internacionais sobre a condução do conflito em Gaza. 'A Argentina está ao lado de Israel, não por conveniência, mas por convicção. Netanyahu lidera uma nação que luta contra o terrorismo e defende a civilização ocidental', declarou Milei, em trecho repercutido pela agência Reuters.
A escolha não é neutra. Enquanto a maioria dos países latino-americanos mantém distância ou critica abertamente as ações israelenses no Oriente Médio, Milei se coloca como uma ilha de apoio. Isso pode ter custos: o Brasil de Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, já sinalizou que a aproximação com Israel pode prejudicar a integração regional. Em nota do Itamaraty, o governo brasileiro afirmou que 'a Argentina deve priorizar o diálogo construtivo no continente, não alinhamentos automáticos'.
Para o FORTIS NEWS, a postura de Milei na ONU revela um dilema central de seu governo: a dificuldade em equilibrar princípios ideológicos com realismo diplomático. A defesa intransigente das Malvinas, sem uma estratégia viável, consome energia política e fiscal. Já o abraço a Netanyahu, embora coerente com a visão de uma 'guerra contra o socialismo', afasta potenciais parceiros no Mercosul e na Aliança do Pacífico.
Do ponto de vista liberal-conservador, não há problema em apoiar Israel — desde que isso não custe o isolamento econômico da Argentina. O país precisa de investimentos estrangeiros para estabilizar a economia e conter a inflação. Cada gesto que o afasta de parceiros comerciais importantes, como a China e a União Europeia, deve ser ponderado.
A verdade factual, contudo, é que Milei não conseguiu transformar a ONU em uma vitrine de sua gestão. O discurso foi ofuscado pela contradição entre o discurso de 'estado mínimo' e o apelo por maior engajamento militar e diplomático em causas caras. Enquanto isso, a esquerda argentina, liderada por Cristina Kirchner, já explora o episódio nas redes: 'Milei foi à ONU falar de Malvinas e de Netanyahu, mas não falou sobre a pobreza que assola 40% dos argentinos', escreveu a ex-presidente em sua conta no X.
O contraponto é inevitável: a esquerda que critica Milei por não falar de pobreza é a mesma que, no poder, gastou bilhões em subsídios ineficientes e corrupção. Contudo, isso não invalida o fato de que a diplomacia argentina precisa de foco. Menos retórica inflamada e mais resultados concretos.
Por Renan Filho · 2026-09-26