**Lead**
O presidente da Argentina, Javier Milei, voltou a endurecer o tom contra o Reino Unido ao classificar como “saque dos nossos recursos” a exploração econômica das Ilhas Malvinas. Em uma declaração oficial transmitida nesta terça-feira (29 de setembro de 2026) da Casa Rosada, o mandatário confirmou que o governo argentino apresentará uma nova reclamação formal na Organização das Nações Unidas (ONU), exigindo a suspensão imediata das licenças unilaterais para extração de hidrocarbonetos e pesca na área sob controle britânico. Segundo o presidente, a ação britânica “viola resoluções internacionais e ignora o direito argentino de soberania sobre o arquipélago”.
**Contexto**
A disputa de soberania sobre as Malvinas (conhecidas como Falkland Islands pelos britânicos) remonta a 1833, quando o Reino Unido ocupou as ilhas e expulsou as autoridades argentinas. Desde então, a Argentina nunca reconheceu a ocupação e mantém uma reivindicação formal respaldada por resoluções da ONU, como a 2065 e a 3160, que reconhecem a existência de uma disputa e instam as partes a negociar uma solução pacífica. No entanto, o Reino Unido rejeita qualquer negociação sobre soberania e administra o arquipélago como um território ultramarino autônomo, permitindo que empresas explorem os ricos campos de petróleo e gás na bacia das Malvinas, além da pesca comercial intensiva.
Nos últimos anos, a descoberta de grandes reservas de hidrocarbonetos na região aumentou a tensão. Empresas como a britânica Rockhopper Exploration e a americana Edison International obtiveram licenças do governo das ilhas para perfuração em águas contestadas. A Argentina, por sua vez, alega que a exploração é ilegal sob o direito internacional e ameaça o ecossistema marinho. O governo de Milei, que assumiu em dezembro de 2023 com uma plataforma liberal, inicialmente adotou uma linha diplomática moderada, mas nos últimos meses endureceu o discurso, especialmente após a concessão de novas licenças de perfuração em 2025.
O presidente argentino tem reiterado que a soberania das Malvinas é uma causa de Estado, e não de governo. Em seu discurso, Milei lembrou que o arquipélago está a cerca de 480 quilômetros da costa argentina e que a população local, de aproximadamente 3 500 habitantes, não tem direito a autodeterminação por ser uma “população implantada” após a ocupação. Ele também destacou que a Argentina mantém uma presença diplomática ativa em organismos multilaterais, como a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) e o Mercosul, que apoiam a reivindicação argentina.
**Análise**
A escalada retórica de Milei ocorre em um momento de crescente pressão internacional sobre o Reino Unido em relação a territórios ultramarinos. Embora Londres tenha aliados como os Estados Unidos, a questão das Malvinas gera desconforto diplomático, especialmente em foros como a ONU, onde a maioria dos países apoia a posição argentina. O novo protesto de Buenos Aires busca reforçar essa pressão, possivelmente visando obter uma resolução que condene as atividades exploratórias britânicas.
Além disso, a crise econômica argentina, com inflação elevada e escassez de divisas, torna os recursos naturais do arquipélago ainda mais importantes para o país. Estima-se que a bacia das Malvinas contenha cerca de 1,7 bilhão de barris de petróleo, o que poderia transformar a economia argentina caso a soberania fosse recuperada. No entanto, a capacidade de Buenos Aires de impor sanções ou medidas coercitivas é limitada, dada a disparidade militar e econômica em relação ao Reino Unido.
O posicionamento mais agressivo de Milei também pode ser lido como uma tentativa de unificar o apoio interno em meio a um cenário político instável. A questão das Malvinas tradicionalmente mobiliza a opinião pública argentina, transcende partidos e oferece ao governo um tema de forte apelo nacionalista. A oposição peronista, embora crítica da gestão econômica de Milei, tende a apoiar a reivindicação soberana, o que pode reduzir as tensões políticas internas.
**Fontes**
A notícia baseia-se no pronunciamento oficial do presidente Javier Milei transmitido pela Casa Rosada em 29 de setembro de 2026, em comunicado distribuído à imprensa pela Secretaria de Comunicação da Presidência da Argentina. Informações complementares sobre as licenças de exploração foram obtidas a partir de registros públicos do governo das Ilhas Malvinas e de reportagens de agências internacionais como Reuters e Associated Press. A posição britânica foi consultada em comunicados do Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido (Foreign, Commonwealth & Development Office) disponíveis em seu site oficial. As referências às resoluções da ONU foram extraídas do acervo da Assembleia Geral das Nações Unidas.
Por Renan Filho · 2026-09-29