Máximo Kirchner, deputado nacional e líder da La Cámpora, confirmou sua participação no Conselho Educacional Nacional (CEN) da Argentina para a próxima semana. Segundo a agenda oficial divulgada pelo conselho, o herdeiro político de Cristina Kirchner falará sobre "educação soberana" e a necessidade de revisão dos conteúdos curriculares. O evento ocorre em meio à pior crise econômica do país em décadas, com inflação anual acima de 200% e metade das crianças abaixo da linha da pobreza.
O Conselho Educacional Nacional é um órgão consultivo que reúne representantes do governo federal, províncias e entidades educacionais. Sua função é debater diretrizes para o ensino básico e superior. Na prática, porém, tornou-se uma arena de disputas ideológicas entre o kirchnerismo e setores liberais. Máximo Kirchner deve defender a eliminação de disciplinas que, segundo ele, promovem "valores neoliberais" e a inclusão de conteúdos voltados à "identidade nacional" e "soberania pedagógica".
Por que isso importa? A Argentina gasta, por aluno, um valor superior à média da América Latina — cerca de US$ 5.300 anuais, segundo dados do Banco Mundial. Apesar disso, o país ocupa a 55ª posição no PISA 2022 em leitura, atrás de Chile, Uruguai e até do México. O índice de abandono escolar no ensino médio chega a 18%, e apenas 30% dos jovens completam o ciclo com proficiência adequada em matemática. Em outras palavras, o Estado argentino tributa pesado (carga tributária de 38% do PIB) e entrega resultados pífios na educação.
A análise da FORTIS é direta: a pauta de Máximo Kirchner não é sobre melhorar a qualidade do aprendizado, mas sim sobre perpetuar um projeto de poder que usa a escola como plataforma de doutrinação. O discurso de "descolonização" soa bem em palanques, mas ignora que o verdadeiro atraso argentino está na falta de meritocracia, na ausência de avaliações objetivas e na rigidez sindical que impede reformas. Enquanto países como Chile e Colômbia avançam em programas de vouchers e autonomia escolar, o kirchnerismo insiste em um modelo centralizador que já fracassou em Cuba e na Venezuela.
Um contraponto necessário: setores progressistas argumentam que a educação deve de fato refletir a cultura local e combater a influência estrangeira. O próprio conselho reúne especialistas que apontam a necessidade de revisão histórica. Porém, os dados oficiais do Ministério da Educação argentino mostram que, nos últimos 20 anos de governos kirchneristas (2003-2015 e 2019-presente), os indicadores de aprendizado pioraram ou estagnaram. O país caiu 15 posições no PISA desde 2006. Se a "educação soberana" fosse tão eficaz, os números deveriam ser melhores, não piores.
Por Renan Filho · 2026-09-26