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Economia

Argentina entre a austeridade e a resistência: os dados mostram que o caminho de Milei funciona, mas o custo político sobe

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-26

O governo de Javier Milei completa dois anos com inflação em queda, superávit fiscal primário e crescimento tímido, mas a pressão social e a oposição no Congresso testam os limites do ajuste. Os números oficiais contradizem o discurso do “fracasso” e expõem o dilema de um país que precisa de mais reformas estruturais.

A Argentina de setembro de 2026 não é a mesma de dezembro de 2023. O índice de preços ao consumidor, que chegou a 211% ao ano sob Alberto Fernández, recuou para 38% nos últimos doze meses, segundo dados do INDEC divulgados no início do mês. O superávit fiscal primário acumulado em 2025 foi de 1,2% do PIB, e o risco país caiu de 2.800 pontos para 890 pontos. Esses números, verificáveis e públicos, são o resultado direto do programa de ajuste liderado por Javier Milei e sua equipe econômica.

No entanto, a realidade nas ruas é mais complexa. A taxa de pobreza, que havia saltado para 52% no primeiro trimestre de 2024 após a desvalorização cambial, estabilizou-se em 41% — ainda alta, mas em trajetória descendente. O desemprego subiu para 9,4% e o consumo interno encolheu 6% em termos reais. Para o cidadão comum, a inflação menor não compensa o arrocho salarial e a perda de poder de compra acumulada. A popularidade de Milei, que chegou a 58% de aprovação em meados de 2024, caiu para 44%, segundo pesquisa da consultoria Poliarquía divulgada em 20 de setembro.

Por que isso importa? Porque a Argentina enfrenta um teste de fogo: o modelo de estado mínimo e livre mercado defendido por Milei depende de resultados tangíveis em prazos eleitorais. As eleições legislativas de 2025 deram ao presidente uma bancada minoritária no Congresso, e as provinciais de 2026, que ocorrem em outubro, podem fortalecer ou fragilizar sua base. Se a economia não gerar empregos formais e crescimento sustentado, a resistência política e social pode inviabilizar as reformas pendentes, como a privatização de empresas estatais e a reforma trabalhista.

Análise FORTIS: Os dados oficiais desmontam a narrativa da esquerda de que o ajuste de Milei é um “fracasso”. A inflação caiu mais de 80% em dois anos, o déficit fiscal foi eliminado e as reservas internacionais, que estavam negativas, voltaram a ser positivas. O Estado argentino gastava muito mal, tributava demais e entregava pouco — exatamente o diagnóstico liberal-conservador. A redução de impostos sobre exportações agropecuárias, a eliminação de subsídios ineficientes e a desregulamentação de setores como energia e transporte já mostram efeitos: a produção de petróleo em Vaca Muerta cresceu 18% em 2025, e as exportações agrícolas aumentaram 12%.

Contraponto: É verdade que o custo social foi severo. O corte de subsídios elevou tarifas de energia e transporte em até 300% para as famílias de baixa renda. A reforma previdenciária, que elevou a idade mínima para aposentadoria, gerou protestos de sindicatos e aposentados. O governo respondeu com programas focalizados de transferência de renda, como o “Voucher Alimentar”, mas o alcance é limitado. A oposição, liderada pelo peronista Sergio Massa e pela kirchnerista Cristina Kirchner, argumenta que o ajuste é “assimétrico” e penaliza os mais pobres. Dados do INDEC mostram que o coeficiente de Gini — que mede a desigualdade — subiu de 0,42 para 0,45 entre 2023 e 2025, indicando concentração de renda. Esse é um dado factual que não pode ser ignorado.

O que falta? A Argentina precisa de reformas microeconômicas que liberem o potencial produtivo. A rigidez trabalhista ainda impede a formalização de milhões de trabalhadores informais. O sistema tributário, embora simplificado, continua pesado: a carga tributária total é de 31% do PIB, contra uma média de 23% na América Latina. A burocracia para abrir uma empresa ainda leva 23 dias, segundo o Doing Business do Banco Mundial. Milei anunciou em agosto um “Pacto de Mayo” com governadores para aprovar uma reforma tributária e uma lei de responsabilidade fiscal nas províncias, mas o Congresso não avançou. Sem isso, o crescimento será anêmico — o FMI projeta 2,1% para 2026, insuficiente para reduzir a pobreza de forma significativa.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.